Fundada por Celina Bartolomé e seu pai, a Pielihueso nasceu com apenas 500 garrafas, registrou o vinho “Naranjo” e hoje exporta para mercados como Estados Unidos, Japão e Espanha. No competitivo mercado global de vinhos, poucas histórias combinam inovação, empreendedorismo e visão de longo prazo como a da Pielihueso. Criada por Celina Bartolomé e seu pai, Alejandro Bartolomé, a vinícola argentina nasceu em 2017 com apenas 500 garrafas produzidas artesanalmente, menos de uma década depois, tornou-se uma referência entre os vinhos premium do país, com presença internacional e um modelo de negócios que integra produção, gastronomia e turismo enológico.
O projeto surgiu a partir de uma mudança de vida de Alejandro Bartolomé, engenheiro agrônomo que dedicou décadas à produção agrícola em Venado Tuerto, na província de Santa Fé. Ao se aposentar, decidiu investir em uma pequena área no Vale de Uco, uma das regiões vitivinícolas mais prestigiadas da Argentina.
O que inicialmente seria apenas um investimento familiar rapidamente evoluiu para um negócio estruturado. Paralelamente, Celina construía uma carreira ligada à comunicação, publicidade e eventos em Buenos Aires, experiências que mais tarde se tornariam fundamentais para a construção da identidade da marca.
Após atuar em agências, produtoras e no setor gastronômico, ela decidiu se dedicar integralmente à empresa familiar. Em 2020, aprofundou sua formação no setor ao realizar um mestrado em vinho no Piemonte, na Itália.
Hoje, a gestão da empresa é dividida entre pai e filha. Alejandro lidera a produção agrícola, enquanto Celina responde pelas áreas comercial, estratégica, de comunicação e desenvolvimento dos vinhos, em parceria com a enóloga Paula La Torre.
De 500 para 55 mil garrafas
Atualmente, a Pielihueso possui 13 hectares próprios em Los Sauces, no Vale de Uco, dos quais 10 hectares estão cultivados, além de uma área adicional em Chacayes, o investimento inicial de aproximadamente US$ 1 milhão foi destinado à aquisição da propriedade e à construção da vinícola, onde toda a produção é realizada.
O crescimento foi acelerado. Das 500 garrafas produzidas na primeira safra, em 2017, a empresa alcançou 20 mil unidades em 2020. Em 2024, a produção atingiu 55 mil garrafas anuais.
Apesar da expansão, a família decidiu interromper o crescimento produtivo nos últimos anos, a estratégia foi motivada pela desaceleração do consumo de vinho e pela volatilidade econômica enfrentada pela indústria. Segundo Celina, a decisão permitiu manter o equilíbrio entre oferta e demanda, evitando estoques excessivos em um momento de retração do mercado.
A aposta que criou uma categoria
Um dos maiores diferenciais da Pielihueso foi sua aposta pioneira nos chamados vinhos laranja, elaborados a partir de uvas brancas vinificadas com contato prolongado com as cascas, a ideia surgiu após uma viagem de Celina aos Estados Unidos, onde conheceu o conceito dos orange wines e identificou uma oportunidade para se diferenciar em um mercado dominado pelos tradicionais Malbecs argentinos.
Na época, a categoria praticamente não existia comercialmente no país. Diante da ausência de regulamentação específica, a empreendedora tomou uma decisão estratégica que acabaria se transformando em uma vantagem competitiva.
Sem poder utilizar oficialmente a denominação “vinho laranja” nos rótulos, registrou junto ao Instituto Nacional de Vitivinicultura (INV) o nome “Naranjo” como designação legal do produto.
A iniciativa garantiu exclusividade sobre a nomenclatura e ajudou a consolidar o rótulo como um dos principais ativos da marca, hoje, o Naranjo é o vinho mais vendido da Pielihueso tanto no mercado argentino quanto no exterior.
A preferência do público também moldou o perfil produtivo da vinícola. Enquanto a maior parte da indústria nacional concentra sua produção em vinhos tintos, a Pielihueso segue caminho inverso: cerca de 80% do portfólio é composto por vinhos laranja, brancos e rosés.
Expansão internacional e turismo de experiência
A construção da marca passou por um intenso trabalho de relacionamento com restaurantes, sommeliers e lojas especializadas, nos primeiros anos, a própria Celina visitava estabelecimentos para apresentar os vinhos e construir uma rede de distribuição. Esse contato direto ajudou a compreender o comportamento dos consumidores e posicionar a empresa de forma diferenciada.
Atualmente, 60% da produção permanece no mercado argentino e 40% é exportada. Os Estados Unidos representam o principal destino internacional, seguidos por mercados como Japão, Espanha, Canadá e Peru.
Além da expansão comercial, a empresa avançou na diversificação dos negócios. O plano de integrar vinho, gastronomia e turismo ganhou forma com a inauguração do restaurante La Amistad, instalado dentro da propriedade em Los Sauces.
O projeto exigiu um novo investimento de aproximadamente US$ 1 milhão e foi desenvolvido ao longo de dois anos. A proposta combina alta gastronomia, visitas à vinícola e experiências exclusivas de degustação, reforçando a tendência do turismo enológico de luxo que cresce em importantes regiões produtoras ao redor do mundo.
Uma marca construída além do vinho
Em um cenário global marcado pela redução do consumo de álcool e pelas mudanças de comportamento das novas gerações, Celina acredita que o futuro da indústria dependerá cada vez mais da capacidade de adaptação das marcas.
Para ela, o diferencial da Pielihueso nunca esteve apenas no produto, mas na construção de uma identidade capaz de gerar conexão com o consumidor.
Essa visão ajudou a transformar uma produção artesanal iniciada com apenas 500 garrafas em uma empresa reconhecida dentro e fora da Argentina — e em um exemplo de como inovação, autenticidade e gestão familiar podem criar valor em um dos mercados mais tradicionais do mundo.


